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18 de agosto de 2026

Miopatia hipocalêmica em gato com potássio quase normal: relato de caso

Gato de 4 anos com ventroflexão cervical intermitente e potássio de 3,39 mEq/L — pouco abaixo da referência — mas CK nove vezes acima. Resolução completa em 13 dias com suplementação de potássio.

Miopatia hipocalêmica em gato com potássio quase normal: relato de caso

A descrição clássica da miopatia hipocalêmica felina associa o quadro a potássio sérico marcadamente reduzido e fraqueza generalizada. Este caso não se encaixou nessa imagem — e é justamente por isso que vale ser relatado.

Trata-se de um paciente atendido pela Ortoradio. Os dados de identificação do animal e da tutora foram omitidos.

O paciente

Gato doméstico, macho, sem raça definida, quatro anos de idade, 4,5 kg.

A primeira alteração foi percebida pelos tutores em 28 de junho: uma marcha descrita como anormal. O paciente foi atendido por veterinário assistente, recebeu anti-inflamatório não esteroidal e analgésico, e melhorou.

Cerca de duas semanas depois houve recidiva da claudicação, agora com marcha descrita como "rebaixada". Mesmo assim o gato permanecia ambulatório, saltava normalmente, comia e bebia bem — apenas estava um pouco menos ativo e brincava menos.

A consulta e a primeira suspeita

No atendimento de 14 de julho, o exame físico foi pouco conclusivo. A característica da marcha sugeria dor lombossacral, mas não havia resposta dolorosa consistente à palpação. Havia possível sensibilidade na base da cauda, região com histórico de processo inflamatório e sem alterações em estudo radiográfico anterior. Os tutores não sabiam precisar se a defecação ocorria normalmente.

Não havia ventroflexão cervical durante o exame.

Diante do conjunto, a suspeita inicial foi de compressão de cauda equina, e foi instituída prednisolona 5 mg (1,1 mg/kg) a cada 24 h por quatro dias, com desmame progressivo.

Em paralelo, veterinário assistente prescreveu tramadol 10 mg (2,2 mg/kg) a cada 8 h. Após a primeira dose, os tutores observaram midríase, alteração comportamental e um posicionamento anormal da cabeça: pescoço relativamente ereto e móvel, mas cabeça mantida em flexão, com o queixo aproximado da região cervical ventral. O fármaco foi suspenso após essa única administração.

A ventroflexão melhorou parcialmente, mas episódios intermitentes continuaram ocorrendo — e foram registrados em vídeo pelos tutores, o que se mostrou decisivo, já que o sinal nunca aparecia na consulta.

Os exames

Em 27 de julho foi feita a investigação laboratorial. Os achados relevantes:

ExameResultadoReferência
Potássio3,39 mEq/L3,70 – 5,40
Creatinoquinase (CK)2.901 U/L6,5 – 320
Sódio151,70 mEq/L145 – 157
Cloretos114,60 mEq/L115 – 130
Cálcio iônico1,41 mmol/L1,1 – 1,5
Fósforo4,60 mg/dL3,3 – 7,8
Creatinina1,54 mg/dL
Ureia68 mg/dL

A CK de 2.901 U/L — cerca de nove vezes o limite superior — foi repetida e confirmada pelo laboratório, o que afasta erro analítico. O hemograma mostrou hematócrito de 48%, discreta neutrofilia e eosinofilia, e proteína plasmática total de 9,0 g/dL. Havia hipertrigliceridemia de 404 mg/dL.

FIV e FeLV negativos. T4 total (1,94 µg/dL) e T4 livre (1,18 ng/dL) dentro da referência, afastando hipertireoidismo.

O ponto central: o potássio estava apenas 0,31 mEq/L abaixo do limite inferior. Um valor desses passa facilmente como irrelevante — não fosse a CK ao lado dele.

O raciocínio

A associação entre ventroflexão cervical, hipocalemia e elevação importante da CK é característica da miopatia hipocalêmica felina [2]. Um estudo retrospectivo de 2025 com 86 gatos apresentando ventroflexão cervical identificou essa condição como o diagnóstico mais frequente, em 48,8% dos casos, e apontou que a ausência de outros déficits neurológicos se associa significativamente a ele [1] — exatamente o cenário deste paciente.

A peculiaridade aqui foi a discrepância entre a hipocalemia discreta e a magnitude da lesão muscular. A explicação provável está na distribuição do íon: o potássio sérico representa apenas uma pequena fração do potássio corporal total, predominantemente intracelular. A concentração no soro pode subestimar de forma importante a depleção muscular real.

Considerando que a alteração de marcha havia começado em 28 de junho e persistia de forma intermitente, é plausível que a depleção estivesse em curso desde as primeiras manifestações — produzindo inicialmente a claudicação e, na evolução, a ventroflexão.

Sobre o tramadol: tendo sido administrada dose única, e estando as alterações locomotoras presentes semanas antes, não há base para atribuir a ele a indução da miopatia. É plausível que seus efeitos farmacológicos tenham apenas tornado evidente uma alteração neuromuscular que já existia.

Tratamento e evolução

Foi instituída suplementação oral com citrato de potássio 200 mg, um comprimido a cada 12 h por 10 dias, iniciada no fim de julho.

  • 4 dias depois: tutores relataram melhora visível do comportamento e da movimentação.
  • 13 dias depois: relataram resolução completa, com retorno à atividade habitual.

Na reavaliação de 17 de agosto:

Exame27/0717/08
Potássio3,39 mEq/L4,03 mEq/L
CK2.901 U/L259 U/L
Creatinina1,54 mg/dL1,22 mg/dL
Ureia68 mg/dL59 mg/dL

Magnésio (2,30 mg/dL), cálcio e fósforo normais. A urinálise mostrou densidade superior a 1,050, sem glicosúria ou cilindrúria, com traços de proteína e relação proteína:creatinina de 0,19 — não proteinúrico.

A etiologia primária da hipocalemia não pôde ser determinada. Não houve evidência de doença renal com perda de capacidade de concentração. O potássio urinário de 197,48 mEq/L foi mensurado quando o paciente já estava suplementado e normocalêmico, em urina muito concentrada, o que impede usá-lo isoladamente para demonstrar perda renal durante a fase de hipocalemia.

O que este caso ensina

  1. Hipocalemia discreta não descarta miopatia hipocalêmica. Um potássio de 3,39 mEq/L conviveu com CK nove vezes acima da referência e sinais clínicos evidentes.
  2. Peça potássio e CK juntos. Isolado, cada um teria sido facilmente subvalorizado.
  3. O quadro pode simular problema de coluna. A suspeita inicial aqui foi de compressão de cauda equina, porque a marcha dominava a apresentação e a ventroflexão era intermitente.
  4. Peça vídeo ao tutor. O sinal nunca apareceu durante o exame físico; o registro em vídeo foi o que documentou sua existência.
  5. Reavalie depois da melhora. A normalização objetiva de potássio e CK é o que fecha o raciocínio — e a série clássica de 1987 mostrou recorrência em três de seis gatos quando a suplementação não foi mantida [2].

Caso atendido e relatado pela Ortoradio. Radiologia e ortopedia veterinária com equipamento móvel próprio.

Fontes

  1. [1]
  2. [2]
  3. [3]
  4. [4]

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