Miopatia hipocalêmica em gato com potássio quase normal: relato de caso
Gato de 4 anos com ventroflexão cervical intermitente e potássio de 3,39 mEq/L — pouco abaixo da referência — mas CK nove vezes acima. Resolução completa em 13 dias com suplementação de potássio.

A descrição clássica da miopatia hipocalêmica felina associa o quadro a potássio sérico marcadamente reduzido e fraqueza generalizada. Este caso não se encaixou nessa imagem — e é justamente por isso que vale ser relatado.
Trata-se de um paciente atendido pela Ortoradio. Os dados de identificação do animal e da tutora foram omitidos.
O paciente
Gato doméstico, macho, sem raça definida, quatro anos de idade, 4,5 kg.
A primeira alteração foi percebida pelos tutores em 28 de junho: uma marcha descrita como anormal. O paciente foi atendido por veterinário assistente, recebeu anti-inflamatório não esteroidal e analgésico, e melhorou.
Cerca de duas semanas depois houve recidiva da claudicação, agora com marcha descrita como "rebaixada". Mesmo assim o gato permanecia ambulatório, saltava normalmente, comia e bebia bem — apenas estava um pouco menos ativo e brincava menos.
A consulta e a primeira suspeita
No atendimento de 14 de julho, o exame físico foi pouco conclusivo. A característica da marcha sugeria dor lombossacral, mas não havia resposta dolorosa consistente à palpação. Havia possível sensibilidade na base da cauda, região com histórico de processo inflamatório e sem alterações em estudo radiográfico anterior. Os tutores não sabiam precisar se a defecação ocorria normalmente.
Não havia ventroflexão cervical durante o exame.
Diante do conjunto, a suspeita inicial foi de compressão de cauda equina, e foi instituída prednisolona 5 mg (1,1 mg/kg) a cada 24 h por quatro dias, com desmame progressivo.
Em paralelo, veterinário assistente prescreveu tramadol 10 mg (2,2 mg/kg) a cada 8 h. Após a primeira dose, os tutores observaram midríase, alteração comportamental e um posicionamento anormal da cabeça: pescoço relativamente ereto e móvel, mas cabeça mantida em flexão, com o queixo aproximado da região cervical ventral. O fármaco foi suspenso após essa única administração.
A ventroflexão melhorou parcialmente, mas episódios intermitentes continuaram ocorrendo — e foram registrados em vídeo pelos tutores, o que se mostrou decisivo, já que o sinal nunca aparecia na consulta.
Os exames
Em 27 de julho foi feita a investigação laboratorial. Os achados relevantes:
| Exame | Resultado | Referência |
|---|---|---|
| Potássio | 3,39 mEq/L | 3,70 – 5,40 |
| Creatinoquinase (CK) | 2.901 U/L | 6,5 – 320 |
| Sódio | 151,70 mEq/L | 145 – 157 |
| Cloretos | 114,60 mEq/L | 115 – 130 |
| Cálcio iônico | 1,41 mmol/L | 1,1 – 1,5 |
| Fósforo | 4,60 mg/dL | 3,3 – 7,8 |
| Creatinina | 1,54 mg/dL | — |
| Ureia | 68 mg/dL | — |
A CK de 2.901 U/L — cerca de nove vezes o limite superior — foi repetida e confirmada pelo laboratório, o que afasta erro analítico. O hemograma mostrou hematócrito de 48%, discreta neutrofilia e eosinofilia, e proteína plasmática total de 9,0 g/dL. Havia hipertrigliceridemia de 404 mg/dL.
FIV e FeLV negativos. T4 total (1,94 µg/dL) e T4 livre (1,18 ng/dL) dentro da referência, afastando hipertireoidismo.
O ponto central: o potássio estava apenas 0,31 mEq/L abaixo do limite inferior. Um valor desses passa facilmente como irrelevante — não fosse a CK ao lado dele.
O raciocínio
A associação entre ventroflexão cervical, hipocalemia e elevação importante da CK é característica da miopatia hipocalêmica felina [2]. Um estudo retrospectivo de 2025 com 86 gatos apresentando ventroflexão cervical identificou essa condição como o diagnóstico mais frequente, em 48,8% dos casos, e apontou que a ausência de outros déficits neurológicos se associa significativamente a ele [1] — exatamente o cenário deste paciente.
A peculiaridade aqui foi a discrepância entre a hipocalemia discreta e a magnitude da lesão muscular. A explicação provável está na distribuição do íon: o potássio sérico representa apenas uma pequena fração do potássio corporal total, predominantemente intracelular. A concentração no soro pode subestimar de forma importante a depleção muscular real.
Considerando que a alteração de marcha havia começado em 28 de junho e persistia de forma intermitente, é plausível que a depleção estivesse em curso desde as primeiras manifestações — produzindo inicialmente a claudicação e, na evolução, a ventroflexão.
Sobre o tramadol: tendo sido administrada dose única, e estando as alterações locomotoras presentes semanas antes, não há base para atribuir a ele a indução da miopatia. É plausível que seus efeitos farmacológicos tenham apenas tornado evidente uma alteração neuromuscular que já existia.
Tratamento e evolução
Foi instituída suplementação oral com citrato de potássio 200 mg, um comprimido a cada 12 h por 10 dias, iniciada no fim de julho.
- 4 dias depois: tutores relataram melhora visível do comportamento e da movimentação.
- 13 dias depois: relataram resolução completa, com retorno à atividade habitual.
Na reavaliação de 17 de agosto:
| Exame | 27/07 | 17/08 |
|---|---|---|
| Potássio | 3,39 mEq/L | 4,03 mEq/L |
| CK | 2.901 U/L | 259 U/L |
| Creatinina | 1,54 mg/dL | 1,22 mg/dL |
| Ureia | 68 mg/dL | 59 mg/dL |
Magnésio (2,30 mg/dL), cálcio e fósforo normais. A urinálise mostrou densidade superior a 1,050, sem glicosúria ou cilindrúria, com traços de proteína e relação proteína:creatinina de 0,19 — não proteinúrico.
A etiologia primária da hipocalemia não pôde ser determinada. Não houve evidência de doença renal com perda de capacidade de concentração. O potássio urinário de 197,48 mEq/L foi mensurado quando o paciente já estava suplementado e normocalêmico, em urina muito concentrada, o que impede usá-lo isoladamente para demonstrar perda renal durante a fase de hipocalemia.
O que este caso ensina
- Hipocalemia discreta não descarta miopatia hipocalêmica. Um potássio de 3,39 mEq/L conviveu com CK nove vezes acima da referência e sinais clínicos evidentes.
- Peça potássio e CK juntos. Isolado, cada um teria sido facilmente subvalorizado.
- O quadro pode simular problema de coluna. A suspeita inicial aqui foi de compressão de cauda equina, porque a marcha dominava a apresentação e a ventroflexão era intermitente.
- Peça vídeo ao tutor. O sinal nunca apareceu durante o exame físico; o registro em vídeo foi o que documentou sua existência.
- Reavalie depois da melhora. A normalização objetiva de potássio e CK é o que fecha o raciocínio — e a série clássica de 1987 mostrou recorrência em três de seis gatos quando a suplementação não foi mantida [2].
Caso atendido e relatado pela Ortoradio. Radiologia e ortopedia veterinária com equipamento móvel próprio.
Fontes
- [1]
- [2]
- [3]
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