Doença do ligamento cruzado cranial em cães: o que é, por que acontece e o que a ciência já sabe
Entenda por que a doença do ligamento cruzado cranial ocorre, quais fatores estão envolvidos e o que a ciência já descobriu.

A doença do ligamento cruzado cranial é uma das causas mais frequentes de dor e claudicação dos membros pélvicos em cães. Apesar de muitas vezes ser percebida de forma súbita — por exemplo, depois de uma corrida, brincadeira ou mudança brusca de direção —, atualmente sabemos que, na maioria dos pacientes, o problema não começa naquele momento.
Em geral, o ligamento já vinha passando por um processo progressivo de enfraquecimento. O movimento em que o cão manifesta a dor pode representar apenas a etapa final de uma doença que se desenvolvia de maneira silenciosa.
O que é o ligamento cruzado cranial?
O joelho do cão, chamado tecnicamente de articulação femorotibiopatelar, é formado principalmente pelo fêmur, pela tíbia e pela patela. Em seu interior existem dois ligamentos cruzados: o cranial e o caudal.
O ligamento cruzado cranial exerce funções essenciais para a estabilidade do joelho. Ele limita principalmente:
- o deslocamento cranial da tíbia em relação ao fêmur;
- a rotação interna excessiva da tíbia;
- a hiperextensão da articulação.
Além da função mecânica, o ligamento também participa da propriocepção, ajudando o organismo a reconhecer a posição e o movimento da articulação.
Quando sua função é perdida, o joelho se torna instável. Essa alteração modifica a distribuição das forças durante o apoio e favorece dor, inflamação, lesões meniscais e progressão da osteoartrose.
Ruptura ou doença do ligamento cruzado cranial?
Durante muito tempo, o problema foi descrito principalmente como “ruptura do ligamento cruzado cranial”. Essa expressão continua correta quando existe rompimento de suas fibras, mas não representa todo o processo observado na maioria dos cães.
Por isso, atualmente é comum utilizar os termos doença, insuficiência ou deficiência do ligamento cruzado cranial. Eles abrangem um espectro que pode incluir degeneração, alongamento e perda funcional, rupturas parciais e, finalmente, ruptura completa.
Em outras palavras, o ligamento nem sempre passa de normal para completamente rompido de uma hora para outra. Muitos pacientes atravessam uma fase intermediária, na qual parte das fibras ainda está preservada, mas a articulação já apresenta inflamação, dor ou instabilidade.
A maioria dos casos não é provocada por um trauma isolado
Nos seres humanos, a ruptura do ligamento cruzado anterior frequentemente ocorre durante um trauma esportivo. Nos cães, o processo costuma ser diferente.
Uma ruptura verdadeiramente traumática de um ligamento previamente saudável pode acontecer, especialmente em acidentes de alta energia. Entretanto, ela corresponde a uma parcela menor dos casos. Na maioria dos cães, a literatura aponta para uma doença degenerativa, progressiva e multifatorial.
Isso significa que não existe uma causa única capaz de explicar todos os casos. Diversos fatores podem atuar simultaneamente, tornando o ligamento progressivamente mais vulnerável até que suas fibras não suportem mais as forças normais exercidas sobre o joelho.
Por esse motivo, é comum o tutor relatar que o cão começou a mancar depois de pular do sofá, correr no quintal ou brincar. Essas atividades podem ter precipitado a manifestação dos sinais, mas não necessariamente foram a verdadeira origem da doença.
O que acontece dentro do ligamento?
O ligamento cruzado cranial é constituído principalmente por fibras de colágeno organizadas para resistir às forças aplicadas durante o movimento. Estudos histológicos e moleculares demonstram que, nos cães afetados, ocorre desorganização e degradação progressiva dessa matriz.
Enzimas envolvidas na remodelação dos tecidos, incluindo as metaloproteinases da matriz, podem contribuir para a degradação do colágeno. Alterações na vascularização e no metabolismo local também vêm sendo investigadas.
A inflamação da membrana sinovial, chamada sinovite, é outro achado frequente. Existem evidências de participação de mecanismos imunológicos e da presença de anticorpos contra componentes do colágeno. Entretanto, ainda não está completamente esclarecido se essas alterações imunológicas iniciam a doença ou se surgem como consequência da exposição e degradação das fibras ligamentares.
Portanto, a ciência já demonstra uma relação importante entre degeneração e inflamação, mas a sequência exata dos acontecimentos ainda permanece em investigação.
Quais fatores aumentam o risco?
A doença do ligamento cruzado cranial é considerada multifatorial. Entre os fatores mais estudados estão:
Predisposição genética e racial
Algumas raças apresentam maior frequência da doença, incluindo Labrador Retriever, Rottweiler, Terra-Nova, Akita, Mastiff, São Bernardo e Staffordshire Terrier, entre outras. A predisposição genética já foi demonstrada em algumas populações, mas isso não significa que apenas cães dessas raças sejam afetados.
A doença pode ocorrer em cães de qualquer raça, porte ou idade, inclusive em animais sem raça definida.
Conformação e biomecânica
O formato dos ossos e a maneira como as forças são transmitidas pelo joelho influenciam a carga aplicada ao ligamento. O ângulo do platô tibial, a conformação do fêmur e da tíbia, a largura da fossa intercondilar e o alinhamento dos membros são alguns dos elementos estudados.
É importante ressaltar que nenhuma dessas características, isoladamente, explica todos os casos. Um ângulo elevado do platô tibial, por exemplo, pode aumentar determinadas forças sobre a articulação, mas não deve ser tratado como a causa única da doença.
Peso corporal e obesidade
O excesso de peso aumenta a carga mecânica sobre o joelho. Além disso, o tecido adiposo não funciona apenas como reserva de energia: ele também produz substâncias capazes de influenciar processos inflamatórios.
A obesidade pode, portanto, contribuir tanto mecanicamente quanto metabolicamente para a progressão da doença e da osteoartrose.
Idade, atividade física e condicionamento muscular
A degeneração pode ocorrer com o envelhecimento, mas a doença não é exclusiva de cães idosos. Animais jovens de raças predispostas também podem ser afetados.
A musculatura ajuda a estabilizar o joelho durante o movimento. Baixo condicionamento, perda muscular e alterações no controle neuromuscular podem aumentar a sobrecarga articular. Por outro lado, exercícios intensos ou inadequados em um animal predisposto também podem precipitar a manifestação clínica.
Ruptura parcial pode evoluir para ruptura completa
Na ruptura parcial, apenas uma parte das fibras perde sua continuidade ou função. Esses pacientes podem apresentar claudicação discreta ou intermitente, especialmente depois de exercícios. Em alguns casos, a instabilidade é pequena e difícil de detectar durante o exame com o paciente acordado.
Com a progressão da degeneração, as fibras restantes ficam sujeitas a maior sobrecarga. Por isso, muitas rupturas parciais evoluem para insuficiência mais acentuada ou ruptura completa.
A manifestação pode parecer repentina, embora o processo tenha se desenvolvido durante semanas, meses ou até mais tempo.
Quais são as consequências para o joelho?
A perda da função do ligamento permite um movimento anormal entre a tíbia e o fêmur. Essa instabilidade provoca inflamação, dor e alterações progressivas na articulação.
As principais consequências incluem:
- claudicação e dificuldade para apoiar o membro;
- redução da atividade e dificuldade para levantar, correr ou saltar;
- perda de massa muscular;
- acúmulo de líquido e aumento de volume do joelho;
- lesão do menisco, especialmente do menisco medial;
- desenvolvimento e progressão da osteoartrose.
O menisco funciona como uma estrutura de amortecimento e distribuição de carga. Em um joelho instável, ele pode ficar comprimido entre o fêmur e a tíbia e sofrer ruptura. Alguns cães apresentam um estalido ou “clique” durante a caminhada, embora sua ausência não descarte lesão meniscal.
O outro joelho também corre risco?
Sim. Como frequentemente existe uma predisposição sistêmica, genética ou conformacional, a doença não deve ser entendida apenas como um problema isolado de um único joelho.
Estima-se que aproximadamente 40% a 60% dos cães diagnosticados em um joelho possam desenvolver alteração semelhante no membro contralateral em algum momento. O intervalo varia entre os pacientes, e isso não significa que todos obrigatoriamente terão ruptura bilateral.
Manter peso adequado, preservar a musculatura e acompanhar precocemente qualquer sinal de desconforto no outro membro são medidas importantes, embora não eliminem completamente o risco.
Quais sinais o tutor pode perceber?
Os sinais variam conforme a velocidade de evolução, o grau de ruptura, a presença de lesão meniscal e a intensidade da osteoartrose. Entre os mais comuns estão:
- mancar de um dos membros posteriores;
- apoiar apenas parcialmente ou manter a pata elevada;
- dificuldade para levantar depois do repouso;
- rigidez ao iniciar a caminhada;
- relutância para correr, brincar, subir escadas ou entrar no carro;
- sentar-se com o membro afetado deslocado para o lado;
- redução da musculatura da coxa;
- aumento de volume na região do joelho;
- piora depois de exercícios.
Rupturas parciais podem causar sinais discretos e intermitentes. Por isso, a ausência de claudicação intensa não exclui a doença.
Como é realizado o diagnóstico?
O diagnóstico começa pela avaliação do histórico, observação da marcha e exame ortopédico. Durante a palpação, o médico-veterinário procura dor, aumento de volume, perda muscular, crepitação e sinais de instabilidade, especialmente o movimento de gaveta cranial e o teste de compressão tibial.
Em animais muito tensos, doloridos ou com ruptura parcial, a sedação pode ser necessária para uma avaliação mais confiável.
As radiografias não mostram diretamente o ligamento cruzado cranial com a mesma definição de outros métodos, mas são fundamentais para identificar sinais associados, como aumento de líquido articular, deslocamentos sugestivos de instabilidade e osteoartrose. Também ajudam a investigar outras causas de claudicação e são utilizadas no planejamento cirúrgico.
Ultrassonografia, tomografia computadorizada, ressonância magnética e artroscopia podem ser indicadas em situações específicas, mas não são necessárias em todos os pacientes.
E como a doença é tratada?
O tratamento deve ser individualizado. Porte, idade, peso, nível de atividade, intensidade da instabilidade, presença de lesão meniscal, alterações nos dois joelhos e outras doenças precisam ser considerados.
Existem abordagens conservadoras e diferentes técnicas cirúrgicas. Entre elas está a osteotomia de nivelamento do platô tibial, conhecida como TPLO, que modifica a biomecânica do joelho para controlar a instabilidade durante o apoio.
Contudo, compreender as vantagens, limitações e indicações de cada tratamento exige uma discussão própria. Esse será o tema do próximo conteúdo da série.
Conclusão
A doença do ligamento cruzado cranial é mais complexa do que uma simples ruptura causada por um movimento errado. Na maioria dos cães, ela resulta da interação entre degeneração ligamentar, inflamação, genética, conformação, biomecânica, peso corporal e condicionamento.
O diagnóstico precoce é importante para controlar a dor, reduzir as consequências da instabilidade e planejar o tratamento mais adequado. Diante de claudicação persistente ou recorrente, o paciente deve ser avaliado por um médico-veterinário.
Referências e leituras recomendadas
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Niebauer GW, Restucci B. Etiopathogenesis of Canine Cruciate Ligament Disease: A Scoping Review. Animals. 2023;13(2):187. https://doi.org/10.3390/ani13020187
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Griffon DJ. A Review of the Pathogenesis of Canine Cranial Cruciate Ligament Disease as a Basis for Future Preventive Strategies. Veterinary Surgery. 2010;39:399–409. https://doi.org/10.1111/j.1532-950X.2010.00654.x
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American College of Veterinary Surgeons. Cranial Cruciate Ligament Disease. https://www.acvs.org/small-animal/cranial-cruciate-ligament-disease/
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